sempre a lembrar-me que nasci num dia estranho
pensando nas coisas que são me hão-de sair
fujo dos livros que me obrigo a escrever
para todo o sempre em paz perecer
vejo-me em grande perturbação
sonho uma grande inundação
só para que encontre algo
para ver se o apanho
e torno mais minha
minha vontade
de perecer
Sunday, June 10, 2007
Monday, May 21, 2007
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,aquela que diz tudo e tudo sabe
que tem a inspiração pura e perfeita,
que reune num verso a inensidade!
Sonho que o verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto vou voando,
Acordo do meu sonho... e não sou nada!...
Florbela Espanca
GayTickets
Florbela Espanca,
Literatua,
poesia,
Vaidade
2º ciclo de cinema lgbt em coimbra (dia 5, o último)
ora bem... antes de mais como é normal acontecer neste ciclo, a sessão começou atrasada, em parte devido ao facto de a pessoa responsável ter vindo alguns minutos antes (meia hora). Conhecendo já do ciclo anterior que decorrera em Novenbro, a verdade é que não digo que tenha sido culpa dele, uma vez que sei que se ele soubesse que iríamos passar um filme em formato divx teria vindo às 20 h em vez de vir às 21.
O pessoal teve de ficar um pouco de tempo à espera. Este que fora o último dia foi também do que teve mais gente. Foi exibido o filme "Get Real". Não me consigo esquecer do título em brasileiro: saíndo do armário lol.
Infelizmente o filme não tinha legendas por problemas técnicos, o que é sempre uma chatice pois uma das pessoas, pelo menos, não sabe inglês e, se calhar algumas das outras não estariam habituadas... as minhas desculpas.
de
qualquer forma foi um dos filmes que pensei em exibir no ciclo anterior e que passou neste, retrata a história de um gay que começa a sua vida como homossexual num meio onde há uma constante repressão, muitas das vezes não verbal ou física, mas de ausência de pessoas com quem se possa falar. a verdade é que o filme provocou algumas sensações em algum pessoal que no fim do filme ficaram para comentar. uma delas referiu-se ao facto de que ficou com uma clara ideia do que é ser-se gay e de ter pessoas que as ameaçam. para outras pessoas provocou a necessidade de pensar em leis que tornem muito mais igual este "tipo de pessoas diferentes". a verdade é que existe em portugal leis que têm posições homofóbicas (como a lei que regula as fecundações in vitro) e que é preciso retrabalhar.
em jeito de conclusão a este ciclo digo apenas uma frase: foi apenas algo feito como costuma a ser feito em coimbra, ou seja, algo feito em cima do joelho pela boa vontade de algumas pessoas enquanto que as que eram suposto estarem mais envolvidas no evento não o fazem...
O pessoal teve de ficar um pouco de tempo à espera. Este que fora o último dia foi também do que teve mais gente. Foi exibido o filme "Get Real". Não me consigo esquecer do título em brasileiro: saíndo do armário lol.
Infelizmente o filme não tinha legendas por problemas técnicos, o que é sempre uma chatice pois uma das pessoas, pelo menos, não sabe inglês e, se calhar algumas das outras não estariam habituadas... as minhas desculpas.
de
qualquer forma foi um dos filmes que pensei em exibir no ciclo anterior e que passou neste, retrata a história de um gay que começa a sua vida como homossexual num meio onde há uma constante repressão, muitas das vezes não verbal ou física, mas de ausência de pessoas com quem se possa falar. a verdade é que o filme provocou algumas sensações em algum pessoal que no fim do filme ficaram para comentar. uma delas referiu-se ao facto de que ficou com uma clara ideia do que é ser-se gay e de ter pessoas que as ameaçam. para outras pessoas provocou a necessidade de pensar em leis que tornem muito mais igual este "tipo de pessoas diferentes". a verdade é que existe em portugal leis que têm posições homofóbicas (como a lei que regula as fecundações in vitro) e que é preciso retrabalhar.
em jeito de conclusão a este ciclo digo apenas uma frase: foi apenas algo feito como costuma a ser feito em coimbra, ou seja, algo feito em cima do joelho pela boa vontade de algumas pessoas enquanto que as que eram suposto estarem mais envolvidas no evento não o fazem...
2º ciclo de cinema lgbt em coimbra (dia 4)
Ora bem a epopeia de filmes a serem exibidos neste que é o segundo ciclo de cinema LGBT em coimbra é um evento que merece toda a atenção. No segundo dia em que o filme exibido foi substituído por um outro com legendas em português foi no mínino cosntrangedor.
de entre três filmes que havia para escolha, esta recai sobre rent (escolha essa que fora em grande parte feita por mim). um filme que me arrependo sinceramente de que tenha passado... mas pronto, de águas passadas. este filme é baseado num musical que fora baseado na ópera "La vie Bohémme" (tanto baseado). pouco tempo depois do filme ter começado notei logo que a escolha fora um tanto ou quanto infeliz e que o raio dos gajos não se calavam com as músicas que metiam bateria e guitarras a torto e a direito. Maldigo, não só o realizador, mas também o criador das músicas que me fizeram passar 2.5 horas a aturar cenas cada uma pior que a outra. Dos poucos momento que vale a pena ficar é a cena do tango, a morte do Angele e o seu funeral... mas poupem-me, lembrar-me daquela música dos 525 600 minutos... não há que a ature!
Sendo um musical pouco tempo depois de a sessão ter começado algumas pessoas saem e ficam apenas meia dúzia a ver o resto
de entre três filmes que havia para escolha, esta recai sobre rent (escolha essa que fora em grande parte feita por mim). um filme que me arrependo sinceramente de que tenha passado... mas pronto, de águas passadas. este filme é baseado num musical que fora baseado na ópera "La vie Bohémme" (tanto baseado). pouco tempo depois do filme ter começado notei logo que a escolha fora um tanto ou quanto infeliz e que o raio dos gajos não se calavam com as músicas que metiam bateria e guitarras a torto e a direito. Maldigo, não só o realizador, mas também o criador das músicas que me fizeram passar 2.5 horas a aturar cenas cada uma pior que a outra. Dos poucos momento que vale a pena ficar é a cena do tango, a morte do Angele e o seu funeral... mas poupem-me, lembrar-me daquela música dos 525 600 minutos... não há que a ature!
Sendo um musical pouco tempo depois de a sessão ter começado algumas pessoas saem e ficam apenas meia dúzia a ver o resto
2º ciclo de cinema lgbt em coimbra (dia 3)
O filme de hoje foi o "Casa no Fim do Mundo" um filme feito a partir da obra com o mesmo nome que um livro do Cunningham, autor do livro "As Horas". Não me refiro em nada de especial do filme uma vez que a adaptação não fora nada de mais. Aliás acho que foi muito soft em termos de alguns episódios assim como de sentimento.
Por mim o melhor momento do filme foi a relação que os dois protagonistas tinham com a mãe de um deles. No livro isso chega ao ponto de um deles querer fazer sexo com ela.
De resto há que referir que o filme que inicialmente estava previsto para este dia era o "Porquoi moi?" de qualquer forma alguém se lembrou de escolher um filme sem legendas em português e isso foi vetado para que fosse substituído. Na exibição do "Casa no Fim do Mundo" tem-se a particularidade de as pessoas da secção de estudos cinematográficos não estarem a horas decentes para preparar a sala para a sessão de cinema e as coisas são sempre à última da hora. Uma das situações que se verificou foi que o filme foi esticado para os lados ou para cima e tinham-se pessoas muito magras ou ligeiramente mais gordas do que ja são.
Por mim o melhor momento do filme foi a relação que os dois protagonistas tinham com a mãe de um deles. No livro isso chega ao ponto de um deles querer fazer sexo com ela.
De resto há que referir que o filme que inicialmente estava previsto para este dia era o "Porquoi moi?" de qualquer forma alguém se lembrou de escolher um filme sem legendas em português e isso foi vetado para que fosse substituído. Na exibição do "Casa no Fim do Mundo" tem-se a particularidade de as pessoas da secção de estudos cinematográficos não estarem a horas decentes para preparar a sala para a sessão de cinema e as coisas são sempre à última da hora. Uma das situações que se verificou foi que o filme foi esticado para os lados ou para cima e tinham-se pessoas muito magras ou ligeiramente mais gordas do que ja são.
Thursday, May 17, 2007
17 de maio
só para lembrar que hoje é o dia (não oficial) da luta contra a homofobia. não pretendo mais nada que lembrar que todos os dias somos confrontados com isso...
Wednesday, May 16, 2007
2º ciclo de cinema lgbt em coimbra (dia 2)
como houvera dito, as complicações neste ciclo de cinema não haveriam de acabar. em primeiro, eram nove horas, meia hora antes do começo da sessão e era suposto haver pessoal do centro de estudos cinematográficos na respectiva sala para que se pusesse o filme a correr e se fizessem todos os testes. como bom português que se preze, chegar a horas ou uns minutos depois é coisa que convenha e o ciclo, como sempre em coimbra, começou com a hora um pouco mais adiantada.
em segundo, os testes antes de a sessão começar têm uma vantagem, evita-se que o filme tenha de começar três vezes por causa de questões de som.
depois de todos estes precalços, começa então a história do filme que tem o nome de "Boys Don't Cry", película baseada numa história verídica acerca de Teena Brandon, uma rapariga que já há muito que se sentia um rapaz. esse papel coube a Hilary Swank (a actriz que protagonizou o "One Million Dollar Baby") e que neste seu papel de 1999 mostra as suas boas qualidades como actriz.
a história é, algo pesada e pejada de vários elementos que provocas as pessoas, quer seja pelo facto de existirem várias cenas sexuais que são trabalhadas de forma particularmente interessante, quer pelas várias cenas algo violentas. aliás a "família" de Lana era algo de muito peculiar e o final era o esperado, e que só poderia ser dessa forma.
em segundo, os testes antes de a sessão começar têm uma vantagem, evita-se que o filme tenha de começar três vezes por causa de questões de som.
depois de todos estes precalços, começa então a história do filme que tem o nome de "Boys Don't Cry", película baseada numa história verídica acerca de Teena Brandon, uma rapariga que já há muito que se sentia um rapaz. esse papel coube a Hilary Swank (a actriz que protagonizou o "One Million Dollar Baby") e que neste seu papel de 1999 mostra as suas boas qualidades como actriz.
a história é, algo pesada e pejada de vários elementos que provocas as pessoas, quer seja pelo facto de existirem várias cenas sexuais que são trabalhadas de forma particularmente interessante, quer pelas várias cenas algo violentas. aliás a "família" de Lana era algo de muito peculiar e o final era o esperado, e que só poderia ser dessa forma.
Tuesday, May 15, 2007
2º ciclo de cinema lgbt em coimbra (dia 1)
- porque é que escreves?
- por vingança.
evento em coimbra que se preze tem de ter sempre duas coisas a acontecer: chatices porque há alguma coisa em falta mas lá há alguém que viola uma regra ou que por boa vontade a arranja e começar com uns minutos de atraso.
foi assim que começou um evento que, apesar de pouco divulgado, mostrou ter público. a afluência não fora tão grande como no evento anterior, de qualquer maneira, várias foram as pessoas que se deslocaram ao pequeno auditório da aac para assistirem ao filme "antes que anoiteça" do snabell. este filme tem a pecularidade de retratar a história de Reinaldo Arenas, um cubano que tinha três pequenos problemas: era escritor, dissidente e homossexual. um filme baseado na obra homónima de um escritor que passa parte do seu tempo a sobreviver primeiro em Cuba e depois em Miami, onde viria a suicidar-se. depois de algumas lágrimas caídas por certas cenas do filme, assim como uma gargalhada devido a uma das personagens interpretadas por Jonny Depp, seguiu-se uma pequena conversa onde se reforçou a ideia de que a se pretende este ano no dia (ainda não oficial) mundial da luta contra a homofobia, de assinalar os países onde é crime ser-se homossexual. é o caso de cuba.
o filme, apesar de longo é daquelas coisas, vale a pena passar os olhos pela coisa... até porque tem boas interpretações (o jonny depp no seu melhor, qual eduardo mãos de tesoura, qual quê!!!!!!) assim como interessantes caracterizações (o raio do Jonny Depp não me sai da cabeça :p) e uma banda sonora interessante.
e pronto, após quatro tentativas de por o filme a correr, de se ter ou não pedido certas autorizações, de se correr o risco de o resto do ciclo ir por água abaixo, lá se fez o primeiro dia, que não será, com certeza o dia mais interessante do ciclo, fica-se por ver o resto.
- por vingança.
evento em coimbra que se preze tem de ter sempre duas coisas a acontecer: chatices porque há alguma coisa em falta mas lá há alguém que viola uma regra ou que por boa vontade a arranja e começar com uns minutos de atraso.
foi assim que começou um evento que, apesar de pouco divulgado, mostrou ter público. a afluência não fora tão grande como no evento anterior, de qualquer maneira, várias foram as pessoas que se deslocaram ao pequeno auditório da aac para assistirem ao filme "antes que anoiteça" do snabell. este filme tem a pecularidade de retratar a história de Reinaldo Arenas, um cubano que tinha três pequenos problemas: era escritor, dissidente e homossexual. um filme baseado na obra homónima de um escritor que passa parte do seu tempo a sobreviver primeiro em Cuba e depois em Miami, onde viria a suicidar-se. depois de algumas lágrimas caídas por certas cenas do filme, assim como uma gargalhada devido a uma das personagens interpretadas por Jonny Depp, seguiu-se uma pequena conversa onde se reforçou a ideia de que a se pretende este ano no dia (ainda não oficial) mundial da luta contra a homofobia, de assinalar os países onde é crime ser-se homossexual. é o caso de cuba.
o filme, apesar de longo é daquelas coisas, vale a pena passar os olhos pela coisa... até porque tem boas interpretações (o jonny depp no seu melhor, qual eduardo mãos de tesoura, qual quê!!!!!!) assim como interessantes caracterizações (o raio do Jonny Depp não me sai da cabeça :p) e uma banda sonora interessante.
e pronto, após quatro tentativas de por o filme a correr, de se ter ou não pedido certas autorizações, de se correr o risco de o resto do ciclo ir por água abaixo, lá se fez o primeiro dia, que não será, com certeza o dia mais interessante do ciclo, fica-se por ver o resto.
há lugares onde ninguém deveria ir sozinho
onde as nossas barreiras se quebram e vaga
o espaço numa leve melancolia a arder
uma dor alucinante cheia de impiedade
algo tão silencioso como só um grito sabe ser
e de tanto doer passa e nem notamos afastar-se
como essa dor é tão minha, oh, essa dor
e eu não ser esse tão esbelto apolo que se afigura...
rasgando os céus nesse carro ardente
não quero eu ir para casa
não quero ter mais lágrimas
ou outras dores estampadas
em um rosto doce feito fel
com a mágoa acorrentada
posso jurar nunca ninguém
vi que olhos chorassem tanto
como os meus que tão lavados
secaram, assim é o poeta
que chora por ter de chorar
sonha sem nunca acordar
vindo sempre de um lugar
onde fica a hora é incerta
e o desejo ardente marado
um lugar onde tudo é tão extenso
feito longe, feito mar de incenso
onde as nossas barreiras se quebram e vaga
o espaço numa leve melancolia a arder
uma dor alucinante cheia de impiedade
algo tão silencioso como só um grito sabe ser
e de tanto doer passa e nem notamos afastar-se
como essa dor é tão minha, oh, essa dor
e eu não ser esse tão esbelto apolo que se afigura...
rasgando os céus nesse carro ardente
não quero eu ir para casa
não quero ter mais lágrimas
ou outras dores estampadas
em um rosto doce feito fel
com a mágoa acorrentada
posso jurar nunca ninguém
vi que olhos chorassem tanto
como os meus que tão lavados
secaram, assim é o poeta
que chora por ter de chorar
sonha sem nunca acordar
vindo sempre de um lugar
onde fica a hora é incerta
e o desejo ardente marado
um lugar onde tudo é tão extenso
feito longe, feito mar de incenso
Monday, May 14, 2007
depois de ter saído de casa J. apercebeu-se que as chaves tinham ficado em cima da cómoda. isso era crítico, logo hoje que estava atrasado para o trabalho... teria de arranjar uma solução o mais depressa que pudesse. teria de ligar à empregada que vinha hoje e perguntar-lhe se poderia vir mais cedo. telefonaria também para o seu patrão a avisar do atraso. a empregada não viria e ele não conseguiria chegar ao trabalho. amanhã por esta mesma hora estaria a levantar-se para não fazer nada mais que esperar o tempo passar.
"há cinco anos que me sinto completamente sozinho... há cinco anos que não visito os meus amigos e por eles fora esquecido... há mais tempo ainda... oh... há quanto tempo... não tomo eu um copo com os meus amigos."
a verdade é que ele bem sabia que não valeria a pena ressentir-se com isso, ele seria sempre o mesmo, ele não conseguiria voltar a renascer, por muito que isso fosse bom e prometesse. há muito que se acomodara e não esperava que o ajudassem a ter de novo a vida alegre que tinha nessa altura.
a verdade é que os tempos mudaram e o momento das borgas tinha passado e nada mais restava que fazer o que fosse possível para arranjar dinheiro e sobreviver mais um pouco neste mundo cruel.
a verdade é que os seus amigos se fartaram de o convidar para sair quando ele dizia que não tinha dinheiro para tomar copos ou que não se sentia bem por lhe pagarem sempre as noites de bebedeira pelas quais passava.
a verdade é que era um adulto, assim como todos os seus amigos e tinham famílias a sustentar. ele não, nunca se afeiçoara a ninguém o suficiente para que isso acontecesse e arranjara-se como pudera, sozinho como sempre se sentira.
a verdade é que tinha preguiça em procurar velhos contactos. e já nem a promessa de bom sexo o motivava a sair de casa para um filme ou uma saída, por mais rápida que fosse que o desviasse do seu caminho: trabalho-casa, casa-trabalho. era por essa razão que as reuniões de trabalho eram para ele um motivo de preocupação.
neste dia não valia a pena apressar-se para chegar a horas ao trabalho, pois nunca chegaria a horas... hoje não valia a pena... porque é que tinha feito aquele telefonema ao seu chefe, se sabia perfeitamente que não conseguiria chegar da parte da manhã ao gabinete onde ocupava os seus dias. nesse dia de que lhe valia...
"pensando bem não tenho vivido nada... que tenho eu feito que não seja ir para o trabalho e fazer o que me compete. não tenho perspectivas de subir, mas também não tenho de descer, sou bem visto, mas ao mesmo tempo não tenho perfil para dirigir pessoas..."
J. não sabia o que fazer da vida nem o que pensar... era daquelas pessoas que se camufla no meio de toda a gente e que tem um pouco de toda a gente e não tem nada de ninguém... um incógnito... passava por milhares de pessoas por dia mas sempre que olhava para elas lhe pareciam distantes, inatingíveis. desejava misturar-se com elas... ser parte da sua vida e não apenas uns meros pontos na história desta cidade. nem no trabalho olhavam para ele como uma pessoa, apenas como um empregado e, nem mesmo a secretária do seu gabinete, que bem feia era, lhe convidara para um café na esquina mais próxima. os seus chefes olhavam para ele como qualquer chefe olha para o mais insignificante dos seus empregados. os seus colegas de gabinete passavam por ele como se nem se apercebessem de que ele existia para além dos limites do gabinete. neta cidade tudo lhe era estranho... desejava alguma cor... nem que essa cor fosse o breu. desejava uma pequena constipação, não para falhar no trabalho, que era o mais preciso possível, mas para que fossem dias diferentes. depois punha-se a pensar... "mas quem pode cuidar de mim que não tenho ninguém que se lembre de que existo?" a altura do ano que mais o aborrecia era o mês de agosto, altura que passava o tempo à espera que o tempo passasse para ele voltar a fazer a viagem para o trabalho. nessas alturas ele inventava que viajava por aquela cidade em que morava e trabalhava. passava pelas ruas que percorria e que conhecia todas as pedras e ladrilhos... demorava precisamente o mesmo tempo a percorrê-las em pensamento que demorava a percorrer na realidade, pois nada mais sabia do mundo que os seus dias nesse vai-vem eterno de casa para o trabalho e vice-versa. hoje olhava para ar e encontrava pássaros que o saudavam como uma pessoa que conheciam de longa data mas que ele não lhe tinha ligado nada. as árvores estendiam as suas folhas para que ele pudesse passar por cima delas e os raios de sol brilhavam como se pretendessem aumentar-lhe o esplendor. e ele olhava tudo isso agora que não podia voltar a casa nem podia ir para o trabalho. andou um pouco mais e descobriu que se estendia no seu caminho para o trabalho um pequeno jardim com árvores e bancos relaxantes. era tudo o que precisava agora. sentia-se um pouco cansado pois percorria um caminho que não conhecia, mesmo que esse caminho fosse o mesmo caminho para o trabalho, o caminho que conhecia tão bem, mas a preocupação das chaves deixara-lhe espaço para fazer maluqueiras.
J. senta-se no banco do jardim e nesse preciso instante é bombardeado com caca de pombo. olha para o casaco sujo e nem se preocupa com isso... a verdade é que o mundo não o perturbava agora... o seu fascínio por tudo aquilo era grande demais para toda a vida que o rodeava. o seu telemóvel tocava insistentemente do trabalho e já alguém no seu gabinete pensara que alguma coisa de mal lhe acontecera... mas não havia nada de mais... deixou-se ficar, largou o telemóvel e manteve-se estático no banco de jardim.
J. nem sabia porque é que não tinha ido para o trabalho na mesmo e ligara à empregada a dizer que deixasse lá a chave. ela bem que o poderia fazer... assim ele estaria naquele momento a trabalhar... mas se assim fosse ele não estaria maravilhado com o mundo à sua volta e não haveria história pois seria um dia igual a tantos outros. restar-nos-ia apenas dizer que ele fora para o trabalho onde preenchera vários papéis e assinara uns quantos de documentos e passara declarações até à hora marcada, altura em que largava o trabalho e vinha para casa. em vez disso deixou-se ficar a olhar para tudo o que acontecia no parque; para as árvores, para os pássaros, para as crianças, para os idosos, para toda a gente que passava, marcando cada uma como se fora um documento único para guardar para a posteridade. cada rosto era único, cada olhar era uma completa ficha de identidade. o andar de cada pessoa explicava mais algo da sua vida, como se fosse necessário registar todos os detalhes para um crime que ocorrera. a um dado momento nada mais fez que deixar-se ficar quieto, sem olhar, com a vida a escoar-se.
J. nunca soubera como o mundo cruel poderia também ser perigoso e esse esquecimento fizera-o baixar armas num local perigoso. os jornais do dia seguinte iriam relatar a morte de uma pessoa nesse parque onde anda tanta gente. tudo para que alguém encontrasse alguns trocos para comprar droga... ele nunca trazia dinheiro e o carteirista não era experiente e preferia matar a roubar... "gostava de lhe ter dito que não trazia dinheiro na carteira... sempre poderia ficar mais um tempo a observar o parque e a descobrir mais coisas nele..."
"há cinco anos que me sinto completamente sozinho... há cinco anos que não visito os meus amigos e por eles fora esquecido... há mais tempo ainda... oh... há quanto tempo... não tomo eu um copo com os meus amigos."
a verdade é que ele bem sabia que não valeria a pena ressentir-se com isso, ele seria sempre o mesmo, ele não conseguiria voltar a renascer, por muito que isso fosse bom e prometesse. há muito que se acomodara e não esperava que o ajudassem a ter de novo a vida alegre que tinha nessa altura.
a verdade é que os tempos mudaram e o momento das borgas tinha passado e nada mais restava que fazer o que fosse possível para arranjar dinheiro e sobreviver mais um pouco neste mundo cruel.
a verdade é que os seus amigos se fartaram de o convidar para sair quando ele dizia que não tinha dinheiro para tomar copos ou que não se sentia bem por lhe pagarem sempre as noites de bebedeira pelas quais passava.
a verdade é que era um adulto, assim como todos os seus amigos e tinham famílias a sustentar. ele não, nunca se afeiçoara a ninguém o suficiente para que isso acontecesse e arranjara-se como pudera, sozinho como sempre se sentira.
a verdade é que tinha preguiça em procurar velhos contactos. e já nem a promessa de bom sexo o motivava a sair de casa para um filme ou uma saída, por mais rápida que fosse que o desviasse do seu caminho: trabalho-casa, casa-trabalho. era por essa razão que as reuniões de trabalho eram para ele um motivo de preocupação.
neste dia não valia a pena apressar-se para chegar a horas ao trabalho, pois nunca chegaria a horas... hoje não valia a pena... porque é que tinha feito aquele telefonema ao seu chefe, se sabia perfeitamente que não conseguiria chegar da parte da manhã ao gabinete onde ocupava os seus dias. nesse dia de que lhe valia...
"pensando bem não tenho vivido nada... que tenho eu feito que não seja ir para o trabalho e fazer o que me compete. não tenho perspectivas de subir, mas também não tenho de descer, sou bem visto, mas ao mesmo tempo não tenho perfil para dirigir pessoas..."
J. não sabia o que fazer da vida nem o que pensar... era daquelas pessoas que se camufla no meio de toda a gente e que tem um pouco de toda a gente e não tem nada de ninguém... um incógnito... passava por milhares de pessoas por dia mas sempre que olhava para elas lhe pareciam distantes, inatingíveis. desejava misturar-se com elas... ser parte da sua vida e não apenas uns meros pontos na história desta cidade. nem no trabalho olhavam para ele como uma pessoa, apenas como um empregado e, nem mesmo a secretária do seu gabinete, que bem feia era, lhe convidara para um café na esquina mais próxima. os seus chefes olhavam para ele como qualquer chefe olha para o mais insignificante dos seus empregados. os seus colegas de gabinete passavam por ele como se nem se apercebessem de que ele existia para além dos limites do gabinete. neta cidade tudo lhe era estranho... desejava alguma cor... nem que essa cor fosse o breu. desejava uma pequena constipação, não para falhar no trabalho, que era o mais preciso possível, mas para que fossem dias diferentes. depois punha-se a pensar... "mas quem pode cuidar de mim que não tenho ninguém que se lembre de que existo?" a altura do ano que mais o aborrecia era o mês de agosto, altura que passava o tempo à espera que o tempo passasse para ele voltar a fazer a viagem para o trabalho. nessas alturas ele inventava que viajava por aquela cidade em que morava e trabalhava. passava pelas ruas que percorria e que conhecia todas as pedras e ladrilhos... demorava precisamente o mesmo tempo a percorrê-las em pensamento que demorava a percorrer na realidade, pois nada mais sabia do mundo que os seus dias nesse vai-vem eterno de casa para o trabalho e vice-versa. hoje olhava para ar e encontrava pássaros que o saudavam como uma pessoa que conheciam de longa data mas que ele não lhe tinha ligado nada. as árvores estendiam as suas folhas para que ele pudesse passar por cima delas e os raios de sol brilhavam como se pretendessem aumentar-lhe o esplendor. e ele olhava tudo isso agora que não podia voltar a casa nem podia ir para o trabalho. andou um pouco mais e descobriu que se estendia no seu caminho para o trabalho um pequeno jardim com árvores e bancos relaxantes. era tudo o que precisava agora. sentia-se um pouco cansado pois percorria um caminho que não conhecia, mesmo que esse caminho fosse o mesmo caminho para o trabalho, o caminho que conhecia tão bem, mas a preocupação das chaves deixara-lhe espaço para fazer maluqueiras.
J. senta-se no banco do jardim e nesse preciso instante é bombardeado com caca de pombo. olha para o casaco sujo e nem se preocupa com isso... a verdade é que o mundo não o perturbava agora... o seu fascínio por tudo aquilo era grande demais para toda a vida que o rodeava. o seu telemóvel tocava insistentemente do trabalho e já alguém no seu gabinete pensara que alguma coisa de mal lhe acontecera... mas não havia nada de mais... deixou-se ficar, largou o telemóvel e manteve-se estático no banco de jardim.
J. nem sabia porque é que não tinha ido para o trabalho na mesmo e ligara à empregada a dizer que deixasse lá a chave. ela bem que o poderia fazer... assim ele estaria naquele momento a trabalhar... mas se assim fosse ele não estaria maravilhado com o mundo à sua volta e não haveria história pois seria um dia igual a tantos outros. restar-nos-ia apenas dizer que ele fora para o trabalho onde preenchera vários papéis e assinara uns quantos de documentos e passara declarações até à hora marcada, altura em que largava o trabalho e vinha para casa. em vez disso deixou-se ficar a olhar para tudo o que acontecia no parque; para as árvores, para os pássaros, para as crianças, para os idosos, para toda a gente que passava, marcando cada uma como se fora um documento único para guardar para a posteridade. cada rosto era único, cada olhar era uma completa ficha de identidade. o andar de cada pessoa explicava mais algo da sua vida, como se fosse necessário registar todos os detalhes para um crime que ocorrera. a um dado momento nada mais fez que deixar-se ficar quieto, sem olhar, com a vida a escoar-se.
J. nunca soubera como o mundo cruel poderia também ser perigoso e esse esquecimento fizera-o baixar armas num local perigoso. os jornais do dia seguinte iriam relatar a morte de uma pessoa nesse parque onde anda tanta gente. tudo para que alguém encontrasse alguns trocos para comprar droga... ele nunca trazia dinheiro e o carteirista não era experiente e preferia matar a roubar... "gostava de lhe ter dito que não trazia dinheiro na carteira... sempre poderia ficar mais um tempo a observar o parque e a descobrir mais coisas nele..."
Friday, April 27, 2007
escritor das coisas incompletas
às vezes sou invadido por uma estranha sensação de completa incapacidade de conseguir fazer o mundo parar de girar. o deserto que assola toda a nossa vida nada mais nos trás que a triste lembrança que estamos vivos para amanhã morrer. sobram-me as minhas mãos, mas que mãos são estas que parece que tudo o que tocam se desfaz como se fosse um toque de algo parecido com um rei midas? os meus sons elevam-se até ao cimo da minha alma para produzirem algo de grande que não consigo ainda vislumbrar. o maravilhoso preenche a minha vida para me lembrar que devo ter esperanças para o que vem. no entanto, em certas noites sozinho, neste quarto escuro, sou invadido por uma súbita sombra que me deixa mais pequeno que um recém-nascido.
as minhas mãos muitas vezes destroem, as minhas mãos, na maioria dos casos deixam as coisas incompletas para depois dizerem que são mãos que trabalham, que fazem muito... os outros é que não lhe reconhecem o verdadeiro mérito. sou escritor porque gosto de exercitar a escrita. mas será que algum escritor pode dizer-se escritor quando o que escreve é sempre incompleto, imperfeito? Sou autor de obras inacabadas que dificilmente serão concluídas. muito dificilmente alguém irá olhar para este diário e pensará que terá algum valor literário quando nada mais escrevi fragmentos do que poderiam ter sido livros, mas que não chegaram ao fim.
um dos meus desesperos dá pelo nome de "verão: dois num quarto" penso nesse texto como talvez um arrojado ensaio para escrever algo mais sublime e apesar de metade estar ja escrita, não lhe consigo escrever a outra metade, o que a desejaria escrever... sei que esse texto não daria para ser publicado, pelo menos para já, mas mesmo assim sinto-o como um peso atrás de mim que não consigo aliviar. pode ser que um verão destes acabe por me sentar a acabar algo que neste momento sinto inacabável, mesmo que dele já tenha final. julgo que não consigo ressuscitar o André e fazer com que ele desperte do sonho que tantas noites o devorou. quanto ao pedro, acho que se virará eternamente para a amargura no interior do quarto, chorando. quanto à rapariga... essa acho que o seu verdadeiro papel nunca será revelado mesmo que o quisesse e permanecerá no incógnito. que fazer disto?
mesmo para este texto deveria escrever mais e não sei como terminar, vejo luzes e não sinto que ninguém apague esse interruptor que escreve sem parar mas que nada mais.............................
as minhas mãos muitas vezes destroem, as minhas mãos, na maioria dos casos deixam as coisas incompletas para depois dizerem que são mãos que trabalham, que fazem muito... os outros é que não lhe reconhecem o verdadeiro mérito. sou escritor porque gosto de exercitar a escrita. mas será que algum escritor pode dizer-se escritor quando o que escreve é sempre incompleto, imperfeito? Sou autor de obras inacabadas que dificilmente serão concluídas. muito dificilmente alguém irá olhar para este diário e pensará que terá algum valor literário quando nada mais escrevi fragmentos do que poderiam ter sido livros, mas que não chegaram ao fim.
um dos meus desesperos dá pelo nome de "verão: dois num quarto" penso nesse texto como talvez um arrojado ensaio para escrever algo mais sublime e apesar de metade estar ja escrita, não lhe consigo escrever a outra metade, o que a desejaria escrever... sei que esse texto não daria para ser publicado, pelo menos para já, mas mesmo assim sinto-o como um peso atrás de mim que não consigo aliviar. pode ser que um verão destes acabe por me sentar a acabar algo que neste momento sinto inacabável, mesmo que dele já tenha final. julgo que não consigo ressuscitar o André e fazer com que ele desperte do sonho que tantas noites o devorou. quanto ao pedro, acho que se virará eternamente para a amargura no interior do quarto, chorando. quanto à rapariga... essa acho que o seu verdadeiro papel nunca será revelado mesmo que o quisesse e permanecerá no incógnito. que fazer disto?
mesmo para este texto deveria escrever mais e não sei como terminar, vejo luzes e não sinto que ninguém apague esse interruptor que escreve sem parar mas que nada mais.............................
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Wednesday, January 31, 2007
Fantasmas de uma cidade 12-Set-2006
As pálpebras abrem-se para recortar a visão do que vejo.
Pessoas, coisas, carros, cidades...
Miro fixamente o que de mim consegue ver
Perdendo um instante nos fantasmas
Prestígio da nossa existência corpórea.
Rio-me da estúpida sintaxe com que Platão me atinge
Interrogo-me quem tem razão.
Sentamo-nos.
Duas cadeiras prestam-se aos nossos serviços -
Espero que fale.
Nada do que ele me diz me interessa e amaldiço-o a ele e à sua caverna.
Observo-o porque os meus ouvidos se fecharam
Retendo apenas na memória a campainha do elevador
Observo a sua boca mexer-se;
Reparo que tem três dentes cariados.
Súbita e inesperadamente levo com um banho de vinho do Porto sob a minha camisa branca
O empregado envergonhadíssimo pede mil desculpas
Irrítadíssimo - ou dando ares disso - desnudo o meu tronco
Peço que ma mandem lavar
- Apesar de tudo isto Platão não parou nem um momento o seu discurso.
Sobra-me estômago para mudar de mesa;
O fantasma roga-me uma praga que acrescento no meu livro negro.
Tomo uma aspirina para me manter a depressão viva.
- Um café por favor.
Agora terei de esperar pelo menos uma hora pela minha camisa
Pobre dela, pensar que me custara os olhos da cara
Vou aos toiletes e lavo a cara
Os meus olhos não conseguem manter-se abertos e ainda preciso de mais 45 minutos
Banho o meu pescoço com uma onda de água fria
Olho as minhas pálpebras, notando o negro das olheiras
- Oh tempo de ir!
Pelos poros da minha pele inrompe tinta negra.
Com as mãos tento remover essa espécie de melaço;
Quanto mais removo, mais a tinta se compõe em desenhos negros
Deixo-me revestir de tatuagens enquanto a cafeína toma efeito
As minhas unhas projectam-se além da realidade
E o meu espírito projecta-se num outro eu
Ele veste uma camisa branca engomada
Os seus olhos estão estagnados de ódio e vingança - atira-me para um cubículo da retrete
Abre o fecho das calças e mija para o chão
Eu agonizo.
Ergue-se com a altivez de um Luís XIV
Eu amargo a um canto como um mutilado Quasímodo
Um ódio, uma raivade não conseguir sair do wc,
Conseguir atirar uma mesa para o chão, mas ele pode.
Devoro o remorço da raiva de não ser ele
E, no entanto sou eu e ele ao mesmo tempo
Ele já não está aqui
E eu sinto que fiquei doido de vez
Peço um copo de vermute
O meu corpo acumula o suor na epiderme
E os meus pêlos aconchegam-se de frio
Sonho tomar um forte ácido para derreter a minha digestão
Que remoi em azia as minhas entranhas
Reparo que Platão está ao lado de uma rapariga
Nada lhe diz
Quem lhe fala é Napoleão
Como um anjo da guarda, acompanha-a o sábio Platão.
Esqueço que o mundo me detesta e peço mais vermute
Vomito tudo o que tenho cá dentro e chamo por Galileu.
Peço-lhe que vá para a N.A.S.A. e me contrua um foguetão
Diz-me não saber o que é
Berro por Elizabeth.
A rainha frígida como sempre, aparece e nada diz
Senta-se ao meu lado e jogamos uma bisca.
Farto-me destas coisas e chamo por Pitágoras.
Ele aparece com a minha camisa branca.
- Finalmente vestido!
Saio do café.
A intelectualidade do escombro de certas cidades revolve-me os olhos
Já de si tão enevoados.
Pessoas, coisas, carros, cidades...
Miro fixamente o que de mim consegue ver
Perdendo um instante nos fantasmas
Prestígio da nossa existência corpórea.
Rio-me da estúpida sintaxe com que Platão me atinge
Interrogo-me quem tem razão.
Sentamo-nos.
Duas cadeiras prestam-se aos nossos serviços -
Espero que fale.
Nada do que ele me diz me interessa e amaldiço-o a ele e à sua caverna.
Observo-o porque os meus ouvidos se fecharam
Retendo apenas na memória a campainha do elevador
Observo a sua boca mexer-se;
Reparo que tem três dentes cariados.
Súbita e inesperadamente levo com um banho de vinho do Porto sob a minha camisa branca
O empregado envergonhadíssimo pede mil desculpas
Irrítadíssimo - ou dando ares disso - desnudo o meu tronco
Peço que ma mandem lavar
- Apesar de tudo isto Platão não parou nem um momento o seu discurso.
Sobra-me estômago para mudar de mesa;
O fantasma roga-me uma praga que acrescento no meu livro negro.
Tomo uma aspirina para me manter a depressão viva.
- Um café por favor.
Agora terei de esperar pelo menos uma hora pela minha camisa
Pobre dela, pensar que me custara os olhos da cara
Vou aos toiletes e lavo a cara
Os meus olhos não conseguem manter-se abertos e ainda preciso de mais 45 minutos
Banho o meu pescoço com uma onda de água fria
Olho as minhas pálpebras, notando o negro das olheiras
- Oh tempo de ir!
Pelos poros da minha pele inrompe tinta negra.
Com as mãos tento remover essa espécie de melaço;
Quanto mais removo, mais a tinta se compõe em desenhos negros
Deixo-me revestir de tatuagens enquanto a cafeína toma efeito
As minhas unhas projectam-se além da realidade
E o meu espírito projecta-se num outro eu
Ele veste uma camisa branca engomada
Os seus olhos estão estagnados de ódio e vingança - atira-me para um cubículo da retrete
Abre o fecho das calças e mija para o chão
Eu agonizo.
Ergue-se com a altivez de um Luís XIV
Eu amargo a um canto como um mutilado Quasímodo
Um ódio, uma raivade não conseguir sair do wc,
Conseguir atirar uma mesa para o chão, mas ele pode.
Devoro o remorço da raiva de não ser ele
E, no entanto sou eu e ele ao mesmo tempo
Ele já não está aqui
E eu sinto que fiquei doido de vez
Peço um copo de vermute
O meu corpo acumula o suor na epiderme
E os meus pêlos aconchegam-se de frio
Sonho tomar um forte ácido para derreter a minha digestão
Que remoi em azia as minhas entranhas
Reparo que Platão está ao lado de uma rapariga
Nada lhe diz
Quem lhe fala é Napoleão
Como um anjo da guarda, acompanha-a o sábio Platão.
Esqueço que o mundo me detesta e peço mais vermute
Vomito tudo o que tenho cá dentro e chamo por Galileu.
Peço-lhe que vá para a N.A.S.A. e me contrua um foguetão
Diz-me não saber o que é
Berro por Elizabeth.
A rainha frígida como sempre, aparece e nada diz
Senta-se ao meu lado e jogamos uma bisca.
Farto-me destas coisas e chamo por Pitágoras.
Ele aparece com a minha camisa branca.
- Finalmente vestido!
Saio do café.
A intelectualidade do escombro de certas cidades revolve-me os olhos
Já de si tão enevoados.
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Wednesday, January 10, 2007
O louco
Vivo num mundo cruel sem que a ele me consiga adaptar completamente. Sou um estranho que habita neste mundo esperando que as pessoas me consigam olhar e consigam ver. Sempre o mesmo; parece que tenhgo sobre mim uma máscara que impede todos de me verem, de me escutarem, de me compreenderem.
Nesta imagem que faço de mim espanto-me. Olho para mim como um príncepe olha para o espelho ansiando o dia em que será feito rei. Vislumbro um espelho de enganos dessa terra que prometo e garanto a mim mesmo que existe; sei lá se existe... nem mesmo às vezes me conheço o suficiente para saber se é verdadeira se mentira esta energia que sinto eclodir dentro de mim.
Por vezes sinto nas minhas mãos toda a materialização da ira que tenho acumulado neste mundo sem que dela me consiga libertar, sem que dela abra mão para esse mundo que não conheço nem sei se existe.
Todos os dias brinco com as minhas mãos colocando nelas um poder imaginado capaz de mover paredes, de erguer bolas de forgo e de concentrar toda a energia que flui na alma desse alguém.
Sou um auto-engano, um reflexo irreal de mim mesmo que não consegue vislubrar a distinção entre o real e o imaginário. o poder de uma borboleta que segue sem rumo no mais ofuscante dos meios.
Ele tem garras que me arranham por dentro e me prendem a um estado de ilusão que por vezes rui como um baralho de cartas; por vezes surge como uma súbita onda que me cerca para encontrar em mim alguma coisa de bom no que me rodeia. Eu sou essa eterna criança que teima em crescer; que vê o mundo e espera mais dele do que o mundo lhe pode dar; que anseia por castelos feitos de papel e de nuvens... Que encontra nos seus inimigos seres que consegue derrotar pelo poder da sua vontade, que lhes consegue rotular com uma praga de mau destino, de infelicidades...
Eu sou um monstro encarcerado nessas grades que construo com alegria e boa disposição; eu sou essa besta medonha feita carniceira que anseia sugar de todo o mundo todo o tutano da sua beleza para o concentrar em si mesmo. Sim, sou essas garras, essas lágrimas, esses arranhoes que me destroem...
Eu sou essa pilha de energias que não consegue mais conter mas que vai inchando até à sua destruição total e de todos os que a rodeiam. Não sou feliz sozinho; não consigo ser feliz... Até para morrer tenho de me autodestruir levando comigo almas para serem vítimas dos demónios que me deveriam açoitar...
Não sei...
Parece que no fim de tudo não sou nem esse lado bom nem esse lado mau...
Sou uma ilusão de algo grande...
Sou mais um... apenas isso...
Consolo.
Nesta imagem que faço de mim espanto-me. Olho para mim como um príncepe olha para o espelho ansiando o dia em que será feito rei. Vislumbro um espelho de enganos dessa terra que prometo e garanto a mim mesmo que existe; sei lá se existe... nem mesmo às vezes me conheço o suficiente para saber se é verdadeira se mentira esta energia que sinto eclodir dentro de mim.
Por vezes sinto nas minhas mãos toda a materialização da ira que tenho acumulado neste mundo sem que dela me consiga libertar, sem que dela abra mão para esse mundo que não conheço nem sei se existe.
Todos os dias brinco com as minhas mãos colocando nelas um poder imaginado capaz de mover paredes, de erguer bolas de forgo e de concentrar toda a energia que flui na alma desse alguém.
Sou um auto-engano, um reflexo irreal de mim mesmo que não consegue vislubrar a distinção entre o real e o imaginário. o poder de uma borboleta que segue sem rumo no mais ofuscante dos meios.
Ele tem garras que me arranham por dentro e me prendem a um estado de ilusão que por vezes rui como um baralho de cartas; por vezes surge como uma súbita onda que me cerca para encontrar em mim alguma coisa de bom no que me rodeia. Eu sou essa eterna criança que teima em crescer; que vê o mundo e espera mais dele do que o mundo lhe pode dar; que anseia por castelos feitos de papel e de nuvens... Que encontra nos seus inimigos seres que consegue derrotar pelo poder da sua vontade, que lhes consegue rotular com uma praga de mau destino, de infelicidades...
Eu sou um monstro encarcerado nessas grades que construo com alegria e boa disposição; eu sou essa besta medonha feita carniceira que anseia sugar de todo o mundo todo o tutano da sua beleza para o concentrar em si mesmo. Sim, sou essas garras, essas lágrimas, esses arranhoes que me destroem...
Eu sou essa pilha de energias que não consegue mais conter mas que vai inchando até à sua destruição total e de todos os que a rodeiam. Não sou feliz sozinho; não consigo ser feliz... Até para morrer tenho de me autodestruir levando comigo almas para serem vítimas dos demónios que me deveriam açoitar...
Não sei...
Parece que no fim de tudo não sou nem esse lado bom nem esse lado mau...
Sou uma ilusão de algo grande...
Sou mais um... apenas isso...
Consolo.
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